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MPRJ denuncia 10 PMs do Bope por invasão de casas e uso irregular de câmeras na Maré
O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou 10 policiais militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) — a tropa de elite da corporação — por violação de domicílio, descumprimento de missão e recusa de obediência durante uma operação no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, em 10 de janeiro de 2025.
De acordo com o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp/MPRJ), os agentes entraram clandestinamente em 13 residências na Nova Holanda, em alguns casos utilizando chave mestra ou arrombando a porta, sem autorização dos moradores nem ordem judicial.
Segundo o MPRJ, parte dos policiais também deixou de cumprir a missão de incursão e estabilização para permanecer dentro dos imóveis, onde dormiram, usaram banheiros e até consumiram itens das geladeiras dos moradores. A PM disse que instaurou procedimento e encaminhou relatório à Auditoria de Justiça Militar (veja nota completa abaixo). Os denunciados Bruno Martins Santiago, 3º sargento; Carlos Alberto Britis Júnior, 3º sargento; Claudio Santos da Silva, 1º sargento; Diego Ferreira Ramos Martins, cabo; Diogo de Araújo Hernandes, 3º sargento; Douglas Nunes de Jesus, 2º sargento; Felippe Carlos de Sousa Martins, 1º tenente; Jorge Guerreiro Silva Nascimento, cabo; Rodrigo da Rocha Pita, cabo; Rodrigo Rosa Araujo Costa, 1º sargento. O tenente Felippe Martins comandou a operação do Bope no Morro Santo Amaro em junho do ano passado.
No local, acontecia uma festa junina na quadra da comunidade.
Durante um confronto, o office boy Herus Guimarães Mendes foi baleado e morreu.
A Corregedoria da PM indiciou o tenente por homicídio.
📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça PM pega comida na geladeira de morador Reprodução/TV Globo Gravação com ‘tela preta’ As investigações apontam que agentes obstruíram deliberadamente as lentes das câmeras operacionais portáteis (COPs), o que resultou em gravações com “tela preta”, dificultando o registro das ações durante a operação.
Por isso, o MPRJ os denunciou por recusa de obediência. Mesmo assim, imagens de outras câmeras e o áudio captado dos equipamentos cobertos ajudaram o Gaesp a compor as denúncias. Em uma casa, segundo a gravação de uma COP, um PM do Bope encontra a porta aberta e entra na sala, onde 3 policiais já estão sentados no sofá.
Ele vai até a cozinha, abre a porta da geladeira, mexe nos produtos no congelador e pega um guaraná natural. Ele volta pra sala e brinca com os colegas: “Todo mundo assistindo televisão bonitinho!” “É o RJTV!”, responde um deles. A conversa segue, e PM com a câmera se estica no sofá e comenta sobre o guaraná.
“Não vem um lacre? Pô, fiquei encabrestado agora.
Vou esperar alguém chegar aqui com mais sede do que eu”, diz. Logo depois, ele cobre a lente da câmera, mas o áudio ainda é captado.
O grupo fala sobre a comida encontrada na casa.
“Tem bacon ali, tem carne, bacon”, destaca um. PM no banheiro Agente sem camisa tinha acabado de usar o banheiro Reprodução/TV Globo Outro registro preservado mostra o momento em que um PM entra em um prédio residencial de 3 andares.
Dentro de um apartamento, ele encontra um colega de farda sem camisa, que tinha acabado de usar o banheiro. Agente 1: "Pô, você já c .......
aqui, né? Agente 2: "Essa tábua aqui nojenta, né? Na sala, outro policial aparece deitado no sofá.
O PM com a câmera ajeita uma almofada para deitar e fala: "Apaga a luz".
Eles apagam as luzes e ficam, segundo o MPRJ, por 1 hora e meia no “descanso” — enquanto deveriam estar em patrulhamento, o que resultou na denúncia por descumprimento de missão. Além de uma série de crimes, as imagens analisadas também revelam desrespeito: Agente: "Tem uma moradora lá em cima.
Maravilhosa." As denúncias Policial usa chave mestra para abrir portão de morador Reprodução/TV Globo O Gaesp apresentou 2 denúncias: uma por crimes contra civis, como violação de domicílio, e outra por crimes militares, como descumprimento de missão e recusa de obediência — o mau uso das câmeras. Entre os denunciados está o cabo Rodrigo da Rocha Pita, apontado pelo Ministério Público como participante de 7 episódios de invasão.
O órgão afirma que não há previsão para o uso de chaves mestras em operações policiais e que a prática indica possível predisposição para a violação de domicílio. As denúncias foram encaminhadas à Justiça Militar, que vai decidir se aceita ou não as acusações.
Até o momento, não houve imposição de medidas cautelares contra os denunciados. ‘Inaceitável’, diz promotor O promotor Paulo Roberto Mello Cunha Reprodução/TV Globo Segundo o promotor Paulo Roberto Mello Cunha, a apuração partiu de denúncias de moradores ao Ministério Público. “Entrar numa casa e usar como se fosse sua, acessar a geladeira, comer o que tem lá, ir ao banheiro, tirar a camisa, deitar, ligar o ar-condicionado, isso aí é inaceitável, não há nenhuma justificativa para isso”, declarou. De acordo com ele, as imagens das câmeras corporais foram fundamentais para o avanço do caso. “A COP veio mostrar uma realidade que a gente já ouvia há bastante tempo”, disse.
“Escancarou essa realidade que já era denunciada pelos moradores e que a gente não conseguia efetivamente demonstrar para poder processar os policiais que agem incorretamente”, emendou. “A Constituição diz que o lar é o asilo inviolável do indivíduo, a não ser no caso de uma ordem judicial para entrar ou se está em andamento um crime em flagrante delito”, reforçou o promotor. Operação na Maré Policiais descansando na casa de um morador Reprodução/TV Globo No dia 10 de janeiro de 2025, a Polícia Militar realizou uma operação no Complexo da Maré com o objetivo de combater roubos de cargas e veículos, além de identificar desmanches irregulares na região. A ação contou com equipes do Bope e de outras unidades especializadas e ocorreu em comunidades como Nova Holanda e Parque União. O que diz a PM “A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informa que a Corregedoria-Geral da Corporação, assim que tomou conhecimento do possível desvio de conduta envolvendo policiais, ocorrido em janeiro do ano passado, instaurou o procedimento apuratório cabível.
Após a conclusão das investigações, o relatório foi encaminhado à Auditoria de Justiça Militar. Ao agir dessa forma, o comando da Corporação reafirma seu compromisso com a legalidade e a transparência, colocando-se à disposição do Ministério Público para colaborar integralmente com as investigações em andamento.
Ressalta, ainda, que não compactua com quaisquer desvios de conduta por parte de seus integrantes, adotando medidas rigorosas sempre que os fatos são comprovados.” A PM informou ainda que o tenente do Bope Felippe Martins, flagrado nas imagens de invasão de casas na favela Nova Holanda e indiciado também pelo homicídio do office-boy Herus Guimarães, no Morro Santo Amaro, está afastado das funções. O RJ1 não conseguiu contato com as defesas dos PMs denunciados.